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Ruas Frias - Um Romance Cyberpunk [entries|archive|friends|userinfo]
kindin_san

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(no subject) [May. 27th, 2004|07:55 pm]
CAPÍTULO VII


Quanto tempo tinha passado? Que dor de cabeça. Que frio. Não sinto o meu braço, apesar de haver choques elétricos provindo dele. Mas..
"Tigre! Tigre! Brilho, brasa. Que a furna noturna abrasa. Que arma ou mão armaria a sua feroz simetria?"
Acordou.
Numa escuridão densa, K abria os olhos. Não sentia nada. O corpo, nu, estava completamente amortecido pelas anestesias que lhe foram aplicadas. Esporadicamente, via-se leves pulsos azul-escuros do lado direito de seu corpo.
Soltou um gemido. Não conseguiu levantar. Gemeu novamente. Suspirou.
O escuro não era algo que lhe despertava boas lembranças. No entanto, não era com isso que se preocupava exatamente. Isto aconteceu depois daquela conversa com o tenente-coronel do exército. O que sentira depois disso?
Os olhos caídos percorriam a escuridão numa busca vã por luz; janela, ou o que fosse e que pudesse sanar o pânico que começava a lhe dominar o corpo.
- Uhn.. O que fizeram comigo? - sussurou para si. Esperou, sinceramente, que algo pudesse respondê-lo. Como numa manifestação divina ou que houvesse outra pessoa dentro de onde quer que ele estivesse.
A boca estava seca e os lábios ressecados. Seu estômago roncava de fome. A úlcera doía. Tudo isto mesclava-se à estranha sensação de não estar sozinho. Muito pelo contrário. Suaves zunidos chiavam em seu ouvido, numa freqüência canina e em decibéis penosos.
- Uma televisão! - conclui. Sempre ouvira este barulho quando notava um aparelho próximo de si. Era como um dom, ou uma superaudição, mas ouvia. E raramente estava enganado. Exceto quando os sons provinham de um desejo de ver uma televisão.
Onde quer que estivesse, não estava ao seu lado.
Súbito.
Um espasmo descomunal surgiu em seu braço, seguido por uma forte descarga elétrica que iluminou todo o quarto.
Urrou.
Infelizmente, porém, lamentou em seguida ter ficado de olhos fechados e ter perdido a paisagem do recinto. Que dor fora aquela?! Seu ombro direito latejava e pequenos sinais de vida se manifestavam no membro direito.
Que bom! ainda tinha mão.
Algo furou-lhe a carne fazendo-o novamente perder os sentidos.
As luzes foram acesas, revelando três presenças magistrais ao redor do rapaz.
- Incrível. Seu corpo parece adaptar-se de maneira monumental ao corpo intruso. - observou Hannah. O vestido de couro agarrado ao corpo sinuoso reluzia com a luz dos holofotes que foram ligados. O avental branco, aberto propositalmente, parecia transparente naquela fêmea efêmera.
- Hmm.. - Diana agachou-se, descendo um óculos plástico aos olhos. A caneta de solda foi conduzida às ligas elétricas do braço biônico que agora fazia parte de K. Luzes bruxulearam, e as hastes metálicas da outra mão moviam fios e circuitos internos. A loura parecia perder o ar de moleca quando envolvida em trabalho. Um tom se seriedade tomava seus olhos castanhos e as sobrancelhas bem feitas arqueavam firmemente, dando a ela a firmeza de um gladiador.
A morena apoiou a prancheta sobre uma mesa cromada e, retirando uns instrumentos medicinais, que consistiam numa pequena lanterna portátil e um bisturi médio, do bolso, agachou-se ao lado da cabeça de K. O polegar fino puxou uma pálpebra para cima e a luz da lanterna jogada lá dentro. O olho biônico pareceu estar vivo, ao responder à manifestação luminosa intensa. Apesar de parecer humano, podia-se notar no olho pequenos contornos inumanos em razão das placas de metal. Bem no centro da pupila, uma pequena lente vermelha, que se fechava e abria fotograficamente.
O bisturi foi inserido cuidadosamente sobre o olho biônico, fazendo um pequeno furo lá. Largou o bisturi e, com uma pinça médica, introduziu um minúsculo objeto no buraquinho. Pingou um liquido vermelho onde tinha cortado, e largou a pálpebra, deixando que ela fechasse.
O velho, eterno observador, não fazia nenhuma objeção ao serviço das meninas. Apesar de ter formação superior em cibernética e medicina eletrônica pela Universidade de Harvard, ousar corrigí-las era o que jamais faria. Os olhos cansados captavam os mínimos detalhes dos movimentos da menina, parecendo absorvê-los como experiência própria.
Caminhou de um lado para o outro; os braços atrás do corpo, numa postura séria e militar, completavam o visual circunspecto e disciplinado do homem.
Caminhada esta que irritava a morena profundamente.
- Por quê raios você tem que ficar aqui durante a operação, Tenente Valentine? - disse secamente Hannah.
- Porque assim pede a situação. A senhorita sabe muito bem que o governo exigiu a minha supervisão durante quaisquer...
- Blá, blá blá. - interrompeu Diana. Rindo, voltou ao trabalho. A cada faísca, o braço mexia suavemente. Talvez por causa da loira, que tocava constantemente nele.
Depois de duas horas, a farda de Vincent já estava aberta e o quepe sobre a maca de Keiji. Um canecão de café constantemente entornava-se na boca bigoduda do militar. Piscou sonolentamente, lançando uma pergunta hesitante:
- Ele está tendo.. sonhos?
- Não. O soro injetado é como anestesia geral, que desliga completamente todo o sistema nervoso.
- E não tem perigo..?
- Perigo tinha em 2000, quando você exercia medicina. - riu sarcástica. Diana riu também. O velho pareceu ter manifestado uma vergonha irritada.
- Vai demorar?
- Credo, velho. Parece criança. Saia daqui se desejar.
- Velho não! Trate-me por tenente, doutora!
Suspirou.
Três horas depois, Diana viria a fechar o braço biônico com uma placa de aparência epidérmica que se juntava ao braço inteiro de aparência humana. Apesar de uma cor fosca, o braço era convincentemente real. De tamanho idêntico ao outro, este novo membro corrigia o problema de "disfunção" que Keiji possuía.
Ao mesmo tempo, Hannah cobria o olho biônico de K com um pequeno plástico redondo e encharcando-o com um líquido azulado. Uns retoques finais e...
- ...pronto! Ufa.. Cinco horas de trabalho! Keijinho acordará no dia seguinte perfeitamente inteiro. Irá estranhar o braço, cometerá gafe e ficará irritado com sua inabilidade perfídia com o novo membro...
- ...e estranhará profundamente o olho que não lhe pertencia. Achará estranho ele responder aos seus comandos e, ora ou outra, achará que está cego...
- ...O estômago doirá, a cabeça também, devido o processo de adaptação. Ele sentirá profundos remorsos por ter aceitado esta imposição da pátria-mãe e chorará à noite com o amigo para voltarem para casa.
...e silêncio. As duas moças olharam o velho espantadas. Consentiram com a cabeça, os semblantes denotando um "sem-palavras". O tenente-coronel sorriu com seu nariz de batata e reabotou a farda.
Em outra parte do complexo, Cobra corria infantilmente pelo corredor com uma cadeira de rodas. As pernas estavam cobertas por mantas que lembravam papel alumínio. O ombro igualmente e assim uma placa metálica se prendia atrás de sua cabeça. Passava em frente ao quarto do amigo, resistindo à tentação de abrir a porta que, com uma voz sensual e atirada, chamava-o para dentro dela.
Cobra sacodia a cabeça e, instintivamente, punha a mão na placa atrás da cabeça. Quando assim o fazía, os ombros doíam de uma forma lancinante e quase insurpotável, que sempre faziam-no gritar.
Depois da dor, ficava quietinho em silêncio. Os braços quietos no colo, os rosto tatuado movendo-se ofidicamente pelo lugar.
No entanto, essa quietude durava pouco; depois de no máximo cinco minutos, Cobra fazia gestos bruscos com os braços, como se pegasse algo no ar, o que despertava risos dos enfermeiros e irritação dos médicos. Era normal para quem retirava um pedaço do cérebro e o substituía por aço orgânico.
As alucinações, porém, entretiam Cobra que, depois que se acostumou ao rádio, não teve viagens banais como estas.
Mirou, de longe, as duas médicas e o tenente saindo do quarto do amigo. Correu rapidamente a eles, girando na cadeira de rodas. O sorriso oposto às cobras brotava-lhe na face:
- E aí! Como ele tá?
- Não tão bem quanto você. - disse Hannah secamente.
- Por quê? Ele tá morto? - riu, seguindo-a com os braços, depois de ela sair andando.
- E se estivesse? Não teria tanta graça. Não é? - sem se virar. Apoiou-se no balcão da recepção, entregando a prancheta a uma das enfermeiras.
Cobra ficou em silêncio. Olhou à loira, que fazia um gesto próximo à têmpora para que esquecesse, fazendo-o sorrir.
- Er.. Diana?
- Di!
- Ok.. Di.
- Fala!
- Como.. Como está ele?
- Ah, bobinho. Mandei esquecer já. Ela é assim e sempre foi. Hannah nasceu no Kansas e, como todo caipira urbano, é orgulhoso e tem vergonha do passado.
- Ehem.. - Cobra pigarreou.
- Ah! Desculpa! Então.. Seu amigo, o Keiji, está ótimo. Não tão bem quanto você, mas ótimo. Acabamos de fazer as correções no braço e olho dele. Amanhã de manhã ele estará acordando. Durante a noite, seu corpo deverá acostumar-se com os corpos "alienígenas".
- Ele recebeu um braço e um olho?! Que sacanagem! Também queria!
- Hihih. Bobinho. - estalou um beijo em sua testa - Você poderá ter um se acaso termine com sucesso a missão.
Cobra, sob a camada de tinta da pele, corou. E se indignou. Que bobagem! Ela nem era tão velha assim para tratá-lo como criança!
Seguiram pelo corredor, conversando alegremente sobre coisas que Cobra entendia e parecia saber mais do que muito universitário.
Distante, o tenente-coronel conversava em um videofone portátil com o Pentágono. Influenciadamente circunspecto, usava termos esquisitíssimos e definições medico-técnicas da situação. O órgão parecia profundamente contente e, dizendo com afinco, mandou que ele fosse urgentemente à residência do presidente quando os garotos acordassem.
Nisto, cobra passou correndo por ele, com a cadeira, pela porta do hospital, sendo perseguido por mais dois enfermeiros.

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(no subject) [May. 13th, 2004|07:10 pm]
CAPÍTULO VI - Revelações. Parte I


Sua vida começava ao quinto dia de agosto de 1996.
Viu-se vivo, três anos depois, como sendo um pequeno projeto de ser humano. Cresceu, pouco a pouco, como num padrão de tempo retardado, em função das profundas crises de depressão e ódio que sentia. Lembro-me de poucos flashes de sua infância. Aí vai o que mais o marcou:
"Sentado no chão, Keiji brincava com sua pequena coleção de carrinhos de metal. Despenteado após o banho, as roupas estavam desarrumadas. Descalço, sorria feliz, ao imaginar-se dentro daquele Mustang vermelho fugindo da polícia logo atrás. A mãe na poltrona, assistia a um programa já extinto, trocando os canais esporadicamente com um ar de profundo tédio. Estava prestes a explodir.
Todavia, o garoto brincava, alheio aos sentimentos corrosivos. Havia de ter em torno de cinco para seis anos.
Simulava onomatopéias com a boca de uma maneira pouco talentosa. A mãe o assistia, nutrindo algo mais do que o amor. Suspirou fundo, a fim de que o filho entendesse que aqueles sons altos estavam-na deixando irritada. Porém, como poderia o garotinho entender falas implícitas? Progredindo, a criança continuou a sua brincadeira.
A mãe berrou.
O menino se assustou. Os olhinhos grandes e bem pretos encheram-se de lágrimas, acompanhando o ritmo do bumbar de seu coração. Dois carrinhos voaram.
A mãe continuou a berrar:
- Seu moleque miserável! Cale essa boca que eu tô tentando pegar essa porra de receita! - mentira, nítida.
Keiji não sabia o que dizer... os olhos parecíam doer com aquele desejo de chorar. Porém, o pai havia-lhe dito que homem não chorava. Prendia-o, e aguava o pânico que lhe tomava conta por dentro. Não falou nada, mesmo porque sua simples vozinha infantil não seria o suficiente para sobrepujar à da mãe.
Continuou.
- Seu bostinha! Vai ficar calado é? Aprenda a responder quando lhe fazem uma pergunta! - dizendo isto, suas mãos femininas e finas atravessaram o ar, colidindo violentamente com o rostinho róseo de Keiji. Os cabelos ainda úmidos eriçaram-se todos com o impacto do golpe. Ele caiu de bruços, sentindo a ardência e a dor da contusão. Lágrimas rolaram de seu rosto.
"Por quê isso?" pensava Keiji, indignado com a cena. Não teria motivos para a mãe lhe espancar. Algo dizia que aquelas garrafas coloridas e de nomes difíceis tinham algo a ver com isso.
Antes que pudesse rastejar para se levantar, mordendo o beiço para não chorar, uma mão forte ergueu-o pelas roupas com violência, atirando-o no sofá. O dedo ofensivo e fino apontava fortemente ao menino.
- Você vai ficar nessa bosta! Pra pensar na merda que fez e quando eu voltar, não quero te ver fora daí e nem dormindo!
Desligou a TV.
Pegou a bolsa.
Saiu.
keiji, agora, via-se realmente num dilema: Na escolinha, diziam-lhe que as mães eram as melhores mulheres do mundo e que jamais poderiam ser desrespeitadas. Porém, os olhos doídos e molhados indicavam uma opinião completamente oposta à da professora. Aquela vagabunda! Por quê diabos fez aquilo!... O fato é que chorou. As lágrimas rolaram de seu rosto com a fluência de uma catarata. A camiseta ficou encharcada, o shortinho e o sofá. Soluçava, urrava e berrava de medo. Estava sozinho em casa, no escuro, sem televisão, sem o Mustang vermelho pra fugir da polícia.
Eis o dilema: Sairia do sofá, e seria espancado pela mãe? ou ficaria no sofá e seria espancado pela mãe? Oh! Dúvida.
Ele se lembrava que, quando sua mãe saía, era para voltar diferente do que era, molenga, sorrdente e desajeitada. Sempre com aquele canudo fumacento entre os dedos e a boca pegando fogo.
O pai.
Não tinha.
Fugiu quando ele ainda era pequeno, após uma briga horrível dele com sua mãe, em sua frente. Aquilo lhe fora marcado a ferro no peito. Só que ainda não entendia aquele ódio que nutria pelo pai. Não tinha o senso para absorver os xingos e berros do pai bêbado, nem o por quê de aquela pistola prateada nas mãos.
Continuando.. ele ficou lá, sim. Por sete horas seguidas. Sem dormir, quietinho. Sem ir ao banheiro, sem comer. A vontade de chorar já tinha passado. Entretanto, aquela força de vontade do pequenino era de se assustar. Os olhos roxos, pesados, secos, mortos! de sono. As pequenas mãozinhas já ostentava marcas da unhas nas palmas de tanto apertá-las por causa da bexiga.
Pensava assim: "Eu vou ficar por que vou provar para aquela vaca que eu não sou nenhum moleque fracote! Vou obedecê-la e ela vai ver que está errada! Receberei elogios e tudo vai voltar ao normal!"
Não voltou."
Viste, leitor? Pobre criança. "
Dez anos mais tarde, quando tinha catorze nas costas, mudaram-se. A mãe perdeu o emprego, foram despejados do apartamento. Tiveram que ir morar num gueto de negros no Queens. Era de graça.
A mãe tinha um namorado novo, que ele se recusava de chamar de padrasto. Um homem repugnante e nojento, vindo da casta mais desprezível da sociedade. Não trabalhava: fazia a mãe de escrava, enquanto assistia partidas históricas dos Lakers na televisão preto-e-branca que tinham.
A mãe, já afetada pelas doenças, e capenga pela idade, parecia querer se redimir dos pecados que tivera cometido ao filho. Bebia muito, sempre antes de as tremedeiras passarem. Tentava ser carinhosa. Porém, quando iria demosntrar afeto a Keiji, seu padrasto exigia outra budweiser. Os olhos castanhos da mãe miravam os pretos do filho. "Desculpa" eles diziam. O garoto fecha os olhos, novamento evitando as lágrimas.
Estava em seu quarto, estudando - sim! Era o que mais gostava de fazer. Ler - história. Diversos livros e compêndios abertos sobre a escrivaninha podre e empoeirada na sala. Forçava os olhinhos à luz das velas, escrevendo compenetradamente a matéria que mais lhe agradava: A Inquisição. Imaginava-se no lugar dos padres loucos, carregando imensas cruzes flamejantes pelas ruas da Europa, exigindo que queimassem as bruxas e os hereges. Mas lembrava-se que em sua vida, jamais havia sido inquisidor. Somente bruxo.
Eram onze horas da noite e, pela sétima hora seguida, Keiji lia. O padrasto aproximou-se, espiand por sobre seus ombros.
- Que merda é essa?
- Lição, Robert.
- Me chama de pai, moleque!
- Você não é o meu pai. - sem olhá-lo. Escrevia ainda, tentando manter a compostura, apesar de que desafiar o padrasto assim nunca dava certo. Suas mãos suavam.
- Sou sim. e exigo que você me chame de pai, seu moleque de bosta. Vive nessa escola de merda pra tentar ser alguém nessa bosta de vida. parece que não tá vendo as teorias daquele doutor louco! A gente tá fodido! E vamos estar mais ainda! Você vai trabalhar pra ajudar essa casa. - A gorda e pesada mão rompeu a concentração do menino ao socar a mesa, chutar livros, rasgar folhas. Jogava Keiji no chão, impondo-se com o dedo peludo esticado - E se não quiser cê vai morar na rua.
Keiji olhou para a mãe escondida no batente da porta. As sobrancelhas franzidas. O ódio lhe tomando. Suspirou, retornando o olhar ao padrasto.
- Ok, pai. Eu vou procurar emprego amanhã.
- Esse é o meu garoto. Mulher! Salta duas cervas. Uma pro garoto.
- E-ele não bebe, querido.
- Mas vai, porra! Me obedece!
Keiji havia perdido o Mustang."
Dois episódios que lhe marcaram. O primeiro, aquele que lhe havia feito perder o amor fraterno e parental e o segundo, que lhe forçou a largar os estudos; grande parte, porque gostou.
O emprego que ele arranjou foi numa oficina mecânica, como aprendiz de eletrônica de um senhor muito bondoso e grisalhoo que lá trabalhava. Ficaram muito amigos. K quase não mais voltava para casa. Sentia no velho o que a professora dizia-lhe na escola. Sorria, carregando caixas de peças, rolando rodas, apertando parafusos. Ria das histórias da infância do senhor.
Cresceu com um ofício. Tornou-se um mecânico exemplar. Não havia problema mecânico que ele não resolvesse. Tinha vinte e dois anos.
Tinha um círculo de amigos muito suspeito, mas que o respeitavam. Corredor de racha, era sempre invicto. Corria em seu Mustang vermelho como uma fera condenada. Seu uniforme era todo em preto, com detalhes de chamas nele e no capacete, o que lhe rendeu o pseudônimo de K; esta letra é uma versão estilizada do ideograma do fogo japonês.
Neste mesmo ano, surgiu um corredor diferente. Um corredor que amava neon verde. Ficaram amigos.
Numa ocasião, em um racha que teve seu amigo como vencedor, teve que tomar uma decisão drástica. Estava feliz por ele ter feito as alterações no automóvel. Balançava a chave inglesa no ar, espremido na platéia.
O carro do amigo derrapou pela linha de chegada, revelando-o sair do automóvel balançando o capacete nas mãos, no ar. Mulheres abraçaram-no.
Infelizmente, quando um homem vê o seu poder ser ameaçado, é tomado por um frenesi incontrolável, uma inépcia profunda. O perdedor saiu do carro, profanando contra o vencedor. Avançou.
Keiji não pensou duas vezes.
Saltou da platéia, abrindo fogo contra o rapaz, deixando-o baleado na cabeça, morto e empoçado no próprio sangue.
K sorriu arrogantemente quando guardou a pistola no coldre da cintura.
Este foi o primeiro dos três assassinatos que cometeu. Teve de executar mais dois líderes locais que ameaçavam seu poder, o que lhe rendeu alguns meses de prisão. Tornou-se amigo do guarda e prometeu-lhe uma recompensa se o soltasse. Assim, perdeu o Mustang.
Agora, só restava o carro de polícia logo atrás de si.

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(no subject) [May. 10th, 2004|07:48 pm]
CAPÍTULO V


K queria saber quanto tempo se passou e onde estava. Depois que entrou naquela limusine, tudo apagou. Pôde ouvir apenas algumas vozes que, em seus sonhos, vinham de homens sombrios.
Cobra e ele estavam em um quarto chique, onde muitos abajures iluminavam penosamente a sala, apesar de haver um lustre bem graúdo no teto. Permaneceu na cama, olhando para o teto, tentando se situar no tempo. Não estava cansado fisicamente para ter dormido isso, talvez cansaço mental.
Tomou coragem. Levantou-se e caminhou até uma das janelas. Olhou para baixo, para cima, para a cidade escura diante de si. Seria noite? Nossa... como é ruim perder os sentidos. Estava nu.
- Minhas roupas. - murmurou para si, tocando o próprio peito. Voltou ao centro do quarto. Correu os olhos pelo aposento, até avistar seu terno jogado sobre uma cadeira fina - Quem foi a bicha que me despiu?
A porta se abriu.
- Meu Deus! Bate antes! - gritou, colocando qualquer peça de roupa na frente do corpo nu.
- Uhn.. Perdoe-me se causei constrangimento. Hih.
Sim. Agora, se K perdesse os sentidos, seria justificável. A pessoa que entara, tratava-se de uma mulher. Não uma mulher simples, mas uma mulher! daquelas que prende, realmente, nossa atenção. Não pelo fato de ser linda, substanciosa ou para cima. Mas uma mulher simples, cabelos lisos, louros, deixando que duas mechas escapassem ao rosto. Um pequeno óculos de lentes pequenas, uns lábios carnudos e cobertor por uma fina camada de batom vermelho. Um sorriso encantador.
A loira era uma daquelas moças que emanava uma aura puramente intelectual, uma aura de "fica-bonita-com-moletom-e-meias", uma aura de sorriso. Tinha lá os seus defeitos, mas naquele momento, o único defeito era K estar longe dela.. e nu.
- Oi? Perdeu a voz? - disse a moça, entrando no quarto. Fechou a porta atrás de si. Vestia um camisão branco, seme stampa, calça jeans e tênis esportivo. Uma pequena mochila pendia no ombro direito.
- Ahn? Não.. Ela tá aqui! - riu, sem graça. O frio que sentia fora substituído por um fluxo de calor inexplicável vindo da mulher - Desculpe-me a indecência, mas..
- Não precisa se explicar. Fui eu quem o despiu.
K desabou. Ela não poderia ser uma prostituta. Qualquer uma, menos ela. Disfarçou o olhar, de uma maneira péssima por sinal, olhando para a janela.
- Não! Não sou isso que você tá pensando! - riu-se - Sou médica. Mandaram-me injetar uma proteína sintética em você, querido.
Andou até o banheiro. K vestia-se com a porta entreaberta, falando alto para que pudesse ser ouvido.
- Uma proteína sintética?
- É. Uma proteína de características especiais. Ela se torna aminoácido biológico e junta-se aos tecidos musculares.
- E pra que serve isso...?
- É um preparatório.
- Como assim?
- Nosso corpo tende a expulsar quaisquer corpos estranhos que acaso invadam nosso organismo. No caso da cybermedicina, também...
Como falava bem. Estava na cara que não era qualquer puta de esquina; as palavras fluíam em sua boca, em função dela, não ao inverso. K ouvia tudo, apesar de não absorver quaisquer informações. Deliciava-se com aquela voz. Como isso era possível?! Sacudiu a cabeça e saiu do banheiro, já vestido e de sapatos. Sorriu à moça, puxou a cadeira e sentou-se defronte ela, cruzando as pernas.
- ... e é por isso que você agora tem essa proteína sintética. Entendeu?
- Ân... Não.
Ela riu.
- Bobinho.. No que pensava?
- Numa coisa hipnotizante.. Seria muito repetir?
- Claro que não. O nosso organismo expulsa corpos. O metal, por exemplo. É o que chamamos de ciberrejeição. Todos nós temos essa "anomalia". Mas, quando se introduz a proteína, nosso cérebro produz substâncias que dizem que este corpo externo agora faz parte do organismo vivo.
- Uhm.. Fascinante.
- É! Eu adoro! Vamos?
- Hm? Ir aonde?
- Ué.. Não te avisaram?
- Não..
Ela sorriu denovo, ajeitando os óculos com a ponta do dedo indicador. Parecia um anjo. Saiu, saltitante, pela porta, caminhando rápido, sem parar de falar sobre aquele assunto que até então não interessava o nosso herói, mas vindo daquela Deusa, tudo fazia sentido.
K a seguiu, cheirando o próprio corpo. Não tinha tomado banho.. Não que se lembrasse. Seguiu-a, num silêncio aconchegante. Desceram muitos lances de escadas, saíram para a rua. Em uma BMW Z3 preta metálica estavam Cobra e uma morena encostado no capô. Cobra conversava alegremente.. Lia-se em seus lábios algo sobre seu irmão, ou coisa parecida.
Quando notou o amigo, abriu os braços e logo o abraçou, não sendo respondido porém. Foi logo falando:
- K! Esta é Hannah.. Hannah, este é K, meu irmão.
A mulher apenas acenou com a cabeça. K nem se limitou a respondê-la. Quis introduzir a "amiga" ao companheiro, porém não sabia o nome dela. Todavia, ela principiou a cumprimentá-lo ativamente:
- Oi! Sou Diana! Pode me chamar de Di! Seu amigo é meio quieto, hein?
- Hah.. Ele é tímido. Depois ele se acostuma. Fala aí, K, muito sinistro esse lance todo de sin-proteínas e cybermedicina!
- É.. Muito.
- Eu dirijo! Heh! - Levantou-se do capô, sacudindo a língua bifurcada fora da boca. Abriu a porta do importado e sentou no estofado de couro. Introduziu a chave no contato e deu a partida, sentindo prazer com o rugido do motor. Deram a volta e entraram em suas respectivas portas. Cobra ligou o CD-Player e deixou que o Trash Metal bumbasse os woofers.
- Para onde? - perguntou Cobra.
- Sétima, esquina com a Horn Boulevard. - respondeu secamente a morena.
- Belê! - pisou fundo, cortando as ruas lotadas com o tesouro. Cobra acusava uma perícia invejável de condução, sendo, talvez, um ás do volante. O que sabemos, leitor, é que K participava de corridas clandestinas. Ninguém o superava. Nesta ocasião em que K e ele se conheceram.
...
Primeiro de Janeiro de 2012. Queens Boulevard.
Um carro voava através da linha de chegada, erguendo copos, hurros e excitando a multidão. O Nissan freou num cavalo de pau, revelando um motorista trajado de verde que saía do carro sacudindo o capacete brilhante nas mãos. Tinha ainda poucas tatuagens escamosas no rosto.
O segundo carro veio logo depois, freiando de maneira agressiva. O piloto saiu do automóvel, hurrando e ofendendo Cobra com muitas palavras chulas. Este, por sua vez, provocava, dando o dedo e mostrando a língua bifurcada.
O oponente se enfezou. Tacou o capacete no chão e voou contra Cobra, que recuou um passo.
Ouviu-se um estrondo. A multidão se calou. O piloto caiu para o lado, espirrando sangue no ar. Sua cabeça estava agora com dois buracos a mais. O autor do disparo emergiu da platéia, assoprando a pistola. Cabelos compridos, calças rasgadas, sem camisa, o peito cheio de tatuagens, o cabelo muito comprido, todo colorido.
Cobra quis saber de quem se tratava. O outro sorriu arrogantemente, guardando a pistola no coldre da cintura. Tratava-se de K.
"Keiji?" repetiu Cobra. "Sim, Keiji." respondeu. Ambos sorriram, e se juntaram então numa simbiose inviolável.

...
Guinou o carro para a esquerda, quando forçou o volante para a direita. O freio de mão foi puxado. O carro deslizou grosseiramente pelo asfalto, estacionando incrivelmente na guia da calçada.
Todos desceram do carro. Cobra girando a chave no dedo. As duas moças aparentemente impressionadas, porém, somente a loira exaltando elogios e gemidos de espantos.
K sentia raiva.
Pararam de frente a um sobrado velho, malcuidado, caindo aos pedaços e capenga na esquina das tais ruas. Era mais um pedaço da "Cidade Noturna", a qual era conhecida muito bem por K e Cobra. Entretanto, nunca tinham vindo a esta parte, o que indicava cautela e prontidão afiadas.
A morena toda sinuosa em seu vestido agarrado de couro, a loira toda solta nas vestimentas esportivas. Eram como os nossos heróis, mas em versões femininas, e convenientemente de pares trocados.
Atravessaram o portão enferrujado, caminharam sobre a trilha de pedras até chegarem na porta de madeira podre.
Uma voz tecnológica bradou:
"Senha."
- A N.O.M comanda! - disse a loira.
- Eu ODEIO esta senha. - concluiu a morena.
"Senha correta."
No chão, ao lado deles, abriu um alçãpão. Luzes fortes se ascenderam, revelando um imenso corredor e escada brancos.
Desceram.
Entraram logo na primeira porta.
Tratava-se de um laboratório gigantesco, entupido de equipamentos cromados, reluzentes, fibras-óticas, cabos de tensão, fios-terra, antenas, armas, pessoas, jalecos-brancos, muitos jalecos-brancos! ternos, e níquel. K gostou. Cobra amou.
Alguns homens de branco passavam por eles averigüando pranchetas e folhas de papel. Seguia assim o fluxo do emprego. Cinco homens de preto se encontravam num canto, todos de óculos escuros, conversando baixo, circunspectos. K gelou. Os olhos se arregalaram. Puxou Cobra e murmurou em seu ouvido:
- A Nova Ordem.
- A NOVA ORDEM?! - gritou excitado.
Os cinco homens de preto saíram de lá. Quando Cobra virou, haviam desaparecido. K olhava para os lados. Como teriam sumido assim?
- Vem.. Vocês ainda têm algo para saber! - disse Diana, puxando K e Cobra a duas camas metálicas, cheia de fios e capacetes indutores - Sentem-se. Vocês têm muito o que saber!
Sentaram-se. Alguns médicos vieram tirar-lhe o paletó e camisa, deixando seus troncos despidos. Um homem de farda azul-marinho aproximou-se dele, ao mesmo tempo que cumprimentava a cabeça todos aqueles para ao qual batiam continência.
- Saudações, cavalheiros.
- E aí, coroa! - disse Cobra, estendendo a mão.
O militar pigarreou.
- Bom dia, Capitão General Comandante Brigadeiro Moço Vincent Valentine! - disse Diana.
- Proceda de acordo com as normas de etiqueta, Doutora Shields. - virando-se aos heróis - Vocês já estão a par de tudo?
- Tudo...? - repetiu K.
- Uhn.. Então parece que terei que explicar. Prestem muita atenção: Vocês fazem parte do Serviço Secreto.
- O QUÊ?! - espantou-se K - DE JEITO NENHUM! QUE PORRA TÁ ACONTECENDO NESSA BOSTA?!
- Contenha-se, Jovem. Vocês só terão de fazer uma coisa. Uma simples tarefa que repercutirá violentamente num rearranjamento da Atual Ordem Global, a A.O.G. Como vocês bem devem saber, a Nova Ordem Mundial foi cunhada por um antigo presidente da América, que pretendia se referir ao mundo multipolar depois da Guerra Fria. Com o passar do tempo e as ideologias megalomaníacas de nossos presidentes e suas insuperáveis fantasias de salvarem o mundo, uma tropa de homens perfeitos, ainda que humanos, foi recrutada como "Avatares da América". Eles estão aqui justamente para pôr ordem no mundo. Muito bem. A Rússia está desenvolvendo um novo tipo de cybertecnologia, tecnologia essa que, em sua proposta, tende a acabar com o uso de metal bruto na confecção de cyberwear. Trata-se de tecido reforçado com ligas metálicas líquidas, feitas a partir de uma novíssima solução desconhecida. Ou seja: a partir de seus membros atuais, vocês poderão ter um membro biônico, apenas com tratamento químico.
K ergueu uma sobrancelha. Olhava o velho incrédulo; Não era possível. Para ele, aquilo soava como uma piada. Engolia seco, porque algo nos velhos cansados do militar lhe dizia que aquilo era muito, muito sério. Consentiu com a cabeça.
- Se isto vier a acontecer, a economia americana entrará em colapso e finalmente o mundo se tornará definitivamente unipolar, com a Rússia no topo. Vocês irão à Rùssia.. Lá, lhes explicarão melhor.
Entreolharam-se. Cobra estava, pela primeira vez, com medo de uma aventura. Em contraposição, K estava empolgado. Sentia algo dentro que não vinha de uma excitação marginal, mas de uma empolgação adulta e econômica.
- Hora de dormir, bebês!
Dizendo isso, a loira cravou uma agulha no pescoço de cada um. Os dois caíram instantaneamente, deitados na cama metálica.
A partir daí, nada mais fazia sentido.

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(no subject) [May. 6th, 2004|10:08 pm]
A noite caía já às cinco da tarde. Toda a área fora isolada por fitas plásticas pretas e amarelas. Diversas viaturas estavam estacionadas; as fortes luzes azuis e vermelhas giravam ultraespecializadamente, iluminando metodicamente todo o perímetro.
 Detetives interrogavam algumas pessoas, anotando suas declarações em pequenos blocos de papel. Alguns enrolavam-se em grossas mantas, enquanto que a maioria acendia cigarros, de qualquer tipo. Alguns especialistas agachavam-se ao redor da enorme poça de sangue; enchiam tubo de ensaios com amostras coletadas do chão, tubos estes que assemelhavam-se a canetas, porém cromadas e cheios de luzes. Inutilmente, porém, afinal já estava tudo misturado.
 Uma típica cena cinematográfica policial após uma típica cena cinematográfica de ação americana; fascinante, exceto para os dois rapazes que insistiam em acreditar que estavam no lugar errado e na hora muito errada... se não tivessem demorado tanto no brechó...
 - Cara... - suspirou Cobra - ... saca só esses cornos fingindo que tão trabalhando. E quem se ferra? Nós!
 - Sossega. A gente ne paga imposto. Aí, a imprensa chegou. Demoraram hoje. Agora a polícia termina rapidinho o serviço. - K riu, tragando a fumaça do cigarro e a expelindo no ar já imundo. Se possível, este já teria se solidificado.
 As vans, incrementadas com visores e grandes antenas o teto, estacionaram com pressa aparente. As portas corriam e equipes inteiras saíam de dentro do veículo, munidas de câmera filmadora, cabos, luzes e claquetes, como se fossem filmer um filme pré-ensaiado.
 Cobra cutucou as costelas de K, levantando-se do capô da viatura:
 - Olha só quem chegou!
 O veículo vinho ostentava o vigoroso logotipo nas portas corredoras. Era capaz que o nome brilhasse mais do que a chacina.
 A porta abriu. K se ergueu.
 Alguns cinegrafistas saíram, acompanhados por vários cablemen. K apagou o cigarro e deu um passo a frente. Suas mãos tremiam:
 - Não pode ser esse cretino!
 O homem que desceu a seguir parecia ser um homem comum, como você, leitor, ou mesmo eu. O que o diferenciava de nós, além do único Armani branco do planeta, era o seu brilhantismo; não diria inovador, mas inteligente com certeza.
 O sorriso brilhante de âncora e a arrogância incontrolada o tornavam em o jornalista mais rico dos Estados Unidos; proporcionalmente, no mais odiado.
 - Eu odeio ele!
 - Calma, cara! - Gritou, enquanto agarrava K. Cobra empurrou-o contra o carro, prendendo seus braços nas dobras dos cotovelos.
 Em poucos minutos, cada repórter havia se posicionado em lugares estratégicos, os quais proporcionavam ótimas tomadas de imagem e o efeito de documentário devido as luzes. K, por sua vez, mantinha os olhos fixos no repórter de branco; suas mãos tremiam dentro dos bolsos quentes. Sua aura dava voltas e explodia numa cor negra e escarlate, denotando uma fúria e um ódio controlado.
 Cobra largou-o, pois não era ele quem ia apanhar por segurá-lo. "Amigos amigos, seja burro sozinho." pensou.
 - Cobra...
 - Que é?
- Mata ele pra mim.
- Larga a mão de ser doente. Relaxa que aí vem um tira.
- Posso tomar o tempo dos senhores?
Cobra pigarreou; ajeitou o terno e recolocou o chapéu na cabeça. Sorriu mafiosamente. K virou-se a um lado oposto, cabisbaixo e pensativo.
- Sou o Detetive Hoyt, polícia de Nova Iorque. Importam-se se eu fizer algumas perguntas?
- Não senhor.
- Os senhores viram algo?
- Se meus olhos não estavam sob o efeito de entorpecentes...
 - Poderiam descrever a mim? - o policial forjava uma nítida expressão dissimulada de interesse e atenção. Sentia mais repugnância e repulsão da aparência de Cobra. Posicionou a caneta no papel.
- Um carro veio voando da esquina, deu com tudo no hidrante. Os cara de dentro saíram atirando em geral. Era tudo japa, sei lá. Aí lotou de tira distribuindo tiro pra todo lado, uma penca de civil morreu do meu lado.. Fiquei sujo de sangue e tal.
 - Hm.. Entendo. Não viu nada de anormal?
- Porra! Duzentos cidadãos caem mortos com tiros da polícia e isso não é anormal?!
- É sim senhor. Mas não a anormalidade que nos interessa. Reparou se os japoneses possuíam tatuagens?
- Não, porra. Vá se ferrar. - e saiu andando, puxando K consigo. Enfureceu-se com o que tinha acabado de ouvir. Apesar de tudo o que fingia ser, K reunia alguns traços humanistas dentro de si. Eu, como autor, diria que ele nasceu em família errada. Entretanto, não era com isso que ele se indignava...
 K suspirou. Tirou a mão direita do bolso, trazendo com ela uma reluzente arma prateada. Engatilhou-a e apontou-a ao repórter de branco.
 - VOCÊ PERDEU O JUÍZO?! - Virou-se um murro na face de K, fazendo com que ele largasse a arma e caísse capenga sobre o capô do carro. A mão ergueu-se à face doída agora, enxergando embaçado; nada mais fazia sentido.. não naquela noite. Notou agora o que tinha pretendido fazer.. Conformou-se de que merecia o soco.
 Cobra pegou a arma e a escondeu dentro do terno. Puxou K do chão, passando seu braço molenga ao redor do pescoço.
- Vem, irmão. Vamos prá casa.
 Iam se distanciando. O movimento da sua larga ia se tornando cada vez mais distante.
 Caminhavam cansados, através dos gases bracos e vapores dos bueiros. Ora ou outra arrastavam os pés pelos restos de ratos do chão, a fim de empurrá-los à sarjeta. Gangues, reunidas suspeitosamentes sob as luzes de mercúrio, apontavam e riam, lançando comentários ligados às vestes dos heróis; logicamente não tinham reconhecido o "Senhor" K, caso contrário não teriam falado aquelas coisas. Há alguns dias, K teria ido tirar satisfações com eles.
 Mas... não sei. Para ele, isto não fazia mais sentido. Estava diferente. Sua mente começava a se acostumar com a idéia de que o mundo não tinha mais salvação. Com a idéia de que, com o dinheiro que recebeu, teria a sua própria. No entanto, a idéia de usá-lo não o agradava nem um pouco. Não sabia porque o tinha recebido, nem sob quais circunstâncias que ainda não lhe tinham sido comunicadas. Isto, misturado à sua vida miserável, alimentavam uma crescente chama neurótica em relação ao Governo.
 Cobra estava do outro lado da balança: calmo e controlado. Essas teorias de Illuminati nem sequer passavam por sua cabeça; sonhava, sim, com o dinheiro - "Não se fica rico todo dia," dizia ele "mesmo que cem milhas não seja propriamente rico" - e o que iria fazer com ele. De fato, aquele braço biônico se tornava cada vez mais tentador.
 A esta altura da caminhada, estavam próximos do apartamento do Cobra.
 Súbito. Uma imponente limusine dobrou a esquina e encostou na calçada, acompanhando o passo dos dois numa baixíssima velocidade constante. Por impulso, Cobra pôs a mão no paletó, sobre a arma. De costas para o enorme carro, apoiou o amigo na maçaneta enferrujada. K esfregou os olhos, tentando focalizar a imagem. "Nossa.. Que onibus baixo." pensou.
 Duas portas se abriram, saindo em seguida dois homens de terno e óculos escuros. Os dois dirigiram-se à última porta, aquelas que estava de frente para nossos heróis. Bateram continência e o choffer abriu-a, levando a mão à testa.
 Cobra deu um giro rápido: ao final, a arma já estava em suas mãos, engatilhada e destravada, mirando o meio do buraco escuro da porta aberta. Os seguranças sequer se moveram.
 Um sapato muito bem lustrado saiu do breu do carro. Então o outro pé. Levantou-se, ajeitando o paletó, ostentando um sorriso simpaticamente político no rosto.
 - Acalme-se, filho. Abaixe isto.
 - Quem... é você? - resmungou K, tentando enxergar o rosto do homem.
 O homem riu.
 - Tenho certeza de que você votou em mim. Chamam-me Brian. Brian Rockefeller. Realmente, esta cidade mudou muito desde que eu era pequeno.
 K sentiu alguma familiaridade na voz, nos trejeitos e, principalmente, no nome. Tentou manter-se em pé, apoiando-se na maçaneta velha de aço. Gemeu.
 - Hn.. Irmão.. é o presidente..
 - De onde?
 - Da América, filho. - respondeu Brian - Vamos entrando, por gentileza. Temos muito o que fazer e minha filha está com um pouco de pressa.
 - Demorou! - sem pestanejar, Cobra lançou-se dentro do carro, acomodando-se no canto da janela, cruzando as pernas. Como era demais andar num carro com banheira!
 O presidente caminhou de volta ao carro.
 - Senhor Presidente? - interrompeu K.
 - Sim, filho?
 - Por quê... envolver a Nova Ordem?
 - ... entre no carro, filho.
- Porra, K! Cê viu a N.O.M e nem pra me avisar!
 Ignorou o comentário. Puxa.. como aqueles bancos estavam atraentes.. aquele ar morno vindo do ar condicionado. Entrou. Fechou os olhos no mesmo instante e adormeceu, ali, no ombro do presidente.
 Partiram docemente pelas ruas de Manhattan.
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(no subject) [May. 4th, 2004|03:39 pm]
CAPÍTULO III


No dia seguinte, o sol veio com raiva; já fulgurava nos céus às sete horas e esquentava bem o monóxido de carbono.
Todas as grandes corporações já estavam cheias de funcionários; todos trabalhavam com vontade para fazer o backup dos mainframes e microframes adicionais; todos os terminais singulares ficavam vulneráveis neste dia do mês, mas em compensação, os firewalls G.E.L.O era triplicados em número.
Alheio aos arranhacéus e ao neon dos holofotes materialistas, estava K caminhando pela 'Parte Noturna' da cidade. Olhou ao redor: tudo estava igual; os mesmos punks, os rapazes e moças-navalhas entupindo as veias com heróina ou di-cloreto de rádio, os mesmos bêbados caídos no chão, as mesmas prostitutas promíscuas se entregando por detrás do lixo.
K suspirou. Hoje parecia estar mais reflexivo. Por cada bar que passava, imaginava o rei das cobras e R.F sentados no balcão. Entretanto, não teria como saber como eram; nunca os vira. Na mesma hora, algo lhe veio à mente:
"Rockefeller?" pensou. "Caraca! É o nome do presidente. Como não pensei antes?! Protocolo Branco é a Casa Branca!"
Vestiu os óculos escuros e pôs-se a correr, apressando-se a contornar becos e ruelas com rodas de gangue. Rapidamente, após chegar ao seu destino, abriu portões de aço enferrujado e subiu escadas de três em três degraus, com o auxílio dos corrimãos. Subiu três andares, percorreu os corredores, agora sem correr apesar do passo desesperado. Entrou num apartamento, cuja porta encontrava-se entreaberta, trinta e sete.
- Cobra! - chamou, olhando para os lados.
- Quem chegu, amor? - ganiu, uma voz irritante.
- Calaboca, porra. - que secundou uma voz ríspida masculina.
Logo, um casa emergia da pouca luz do quarto. O rapaz possuía tatuagens por todo o corpo, de coloração verde escura, assemelhando-se a escamas ofídicas.
Cobra empurrou a prostituta para o lado e abraçou K em seguida; ambos, a moça e ele estavam nus.
- Aí, irmão. Que cê tem?
- Cê tá legal, Cobra? Cara, ontem...!
- Relaxa, K. O Fusível me ejetou em tempo. Cara, a menina operava uma espécie de I.A Device... nunca me borrei tanto.
- Que merda é isso?
- I.A Device? Um aparelho controlado de Inteligência Artificial.. é um tipo de megacomp que pensa que rápido que gente, apesar de ter as limitações de um PC. O foda é que...
- ... só o governo tem. Cara, ontem eu vi na TV o presidente.
- Tava tendo eleição?
- Cê lembra do que o Naja chamava a R.F?
- Uhm.. - refletiu por uns instantes, jogando-se no sofá macio.- Rock alguma coisa.
- Rockefeller.
- E...?
- O presidente se chama Brian.
- Grande bosta.. Meu vô também.
- Não, cretino. Brian Rockefeller!
- Oh, merda...
- Pior. Saca só. - Puxou da jaqueta de couro uma folha de papel dobrada.
Cobra tomou-a de suas mãos e desdobrou-o, com um 'quê' de hesitação.
Leu três vezes para ter certeza.
- Mano.. Como cê arranjou cem milhas?
- Lê o código fonte atrás.
"Transference automatically accepted: Thank you for using our software.
·Você acaba de receber um depósito de cem mil créditos provenientes do Protocolo Branco."
Ficou em silêncio uns instantes; ninguém saberia dizer o que passava pela mente do réptil. Passou as unhas pontudas pelo rosto escamoso, então falou:
- Caralho, a Casa Branca.
K só concordou com a cabeça. Afundou, agora, numa poltrona empoeirada, cruzando os dedos defronte o peito.
Cobra, porém, encontrava-se no oposto de estado de espírito. Sua pestana tremia sutilmente. Lambeu os lábios com a língua bifurcada e mordeu o inferior:
- Cê tá rico, K, meu...
- Nem fodendo.. a R.F disse que o resto vinha depois.
- Como assim, "resto"?
- Então.. Acho que tamos metidos numa enrascada violenta.
- "Tamos" uma ova.. quem recebeu o dinheiro foi você.
- Não se plugou hoje, por acaso?
- Nem deu tempo. Por quê?
- Liga o laptop.
Fez o que lhe fora pedido; com o pequeno computador ligado, sentou-se de frente para ele numa mesa bonita. Trocava olhares desconfiados com o amigo.
Acessou o software de Transferências instintivamente, com apenas uns comandos do teclado.
Repetiu automaticamente o que leu na tela...
- ... cem mil créditos.
K sabia. Apenas concordou com um aceno de cabeça do lugar de onde estava.
- Sabe o que iss significa? - falou.
- Que podemos fugir pro Brasil e vivermos ricos?! - notava-se um tom explícito de excitação.
- Não, réptil néscio.. significa que o governo sabe de nós. E se ele sabe o número de nossas contas, imagina o endereço, idade, nome dos pais e tal.. Pior! e se ele resolve mandar a N.O.M atrás de nós?
- Nooossa! Seria muito animal! Dizem que os agentes da Nova Ordem Mundial possuem o cyberwear mais avançado da América.. com certeza seria excitante!
- Mas você é bem burro,. Anda.. se veste.. é hora de fazermos uma comprinhas.. afinal, que se foda.. Já que estamos fodidos mesmo.
- Agora tá falando meu idioma.
Cobra saiu de cena uns minutos, retornando em seguida muito mais bem vestido, arrancando comentários até da prostituta. Vestia-se com um belo terno preto e óculos escuros. O Moicano verde baixo, estava todo para trás com a ajuda de gel capilar.
- Que retrô, seu brocha.. - gemeu a autônoma.
Cobra grunhiu, apesar de sentir-se no fundo assim. Acabou por expulsá-la aos chutes do apartamento.
Ainda de braços cruzados, K punha a mão na boca para não rir.
- Quê foi?! Burrice ir gastar uma grana dessas vestido como street-op.
- Haha.. hahahehuahae.. cara..
- Quê, caralho?
- Cê tá ridículo.
- ...
- HAhAHAHAHAHA!
- Bah!
Cobra largou o apartamento com profundos passos pesados, batendo portas e bufando como um touro. Ainda rindo, K acompanhou o rapaz, caminhando logo atrás.
Após uns consolos do amigo, envolvendo tapa cordial nos ombros e abraços em meio a risos, Cobra recuperou o humor. De fato, uma pessoa de pele ofídica não combinava com as vestimentas de um corporado. No entanto, K refletiu, fazia sentido o que ele dissera: "gastar cem milhas vestido como um marginal seria muita burrice".
Então, a primeira loja que foram visitar foi um brechó de ternos que, apesar de sujo e empoeirado, procurava um pouco de bom gosto:
- Ora, ora. O famoso Senhor K de terno? Hoje vai ser um dia daqueles. - riu Cobra.
- E então, vai ser o quê?
Aproximou-se um homem baixo, magro e de rosto gasto. As mãos unidas no peito pareciam untadas, de tanto que suavam. Um sorriso canalha completava o visual cadavérico.
- Quero um terno, sapatos, camisa, gravata, essas viadagens todas, liso, limpo e pretos.
- Sim, Senhor K. Vista estes.
- Hmm.. Caiu bem até.. calço quarenta.
- Como desejar. Aqui estão.
- Ave... que merda desconfortável. Sabe o que completaria o visual, Cobrinha?
- Um cadillac metálico e uma penca de puta do lado?
- Hehe.. Não.
Ah, sim! Agora faziam jus ao estilo que tanto armazenavam em potencial. Agora andavam pelas ruas, ambos com ternos idênticos, impecáveis, sapatos lustros, óculos escuros. Imponentes e pomposos, reavivando o charme gangsteriano do chapé de abas longas.
Chamavam a atenção que mereciam; e era muita! Atenção como a que a primeira pessoa chamou quando usou um risca-de-giz pela primeira vez. As naves-libélulas, os belos automóveis, grupos de empresários, gangues de punks, tudo passava conforme caminhar, e os dois emanavam uma aura "Al Capone".
Cobra suava. Mantinha a pose pomposa, espiando os transeuntes por dentro dos óculos escuros. Em contrapartida, K estava achando o máximo, bem animado e sorrindo vividamente. Com os ombros para trás e o peito estufado, andava como os mafiosos de desenhos.
- Não usam isso faz uns cem anos, cara! - recordava Cobra, parecendo tomar a animação do amigo para si.
- E daí?! Estamos demais! Todo mundo tá olhando pra cá!
- Saca só. Achei na loja. - puxou um panfleto que abria em diversas páginas retangulares. Lia-se na capa "Corporação Einstein: Novo Catálogo". - Tem uma coisa aqui que eu ia adorar ter!
- Sem essa, K! Você interessado em cyberwear?!
- Olha, convenhamos: Cyberwear é que nem McDonald's: a marca fede mas o sanduba é bom à beça!
- Bom argumento.. De qualquer jeito, O PA-750c é maravilhoso.. talvez eu compre um.
- Aqui.. 750 é ótimo.. mas o 850 é melhor e não é cromado!
- Fala sério! Vem com biomonitoramento no ombro também?
- Vem.. e espaço pra uma arma interna, dispositivo ejetor de garras opcionais e, por mais quinze milhas, garras de plasduro.
- Deus abençoe a tecnologia..
Enquanto conversavam, a pacatez da cidade foi quebrada por vários gritos desordenados; um pneu rasgou o asfalto quando arremessou-se pela esquina, pouco antes de se chocar com um hidrante. Cinco pessoas pularam do veículo, distribuindo tiros. A polícia apareceu em seguida, atirando igualmente. Umas dez pessoas foram caindo, uma a uma, ao lado dos nossos heróis.
Limitaram-se ao recuo e a silêncio.
Logo vieram mais duas viaturas escandalosas, distribuindo mais tiros às cegas.
K e Cobra jogaram-se através de uma vitrine, escondendo-se por trás das caixas de mercadorias quebradas.
Súbito. Pareceu-lhes que a multidão fora obrigada a passar pela frente deles naquele momento. Cinco homens identicamente trajados cruzaram o fluxo de civis por dentro, sem serem atropelados.
Ternos Armani pretos, gravatas, camisas, luvas de courp, sapatos, óculos escuros e cinto: todos iguais. A cena a seguir pareceu ser em slow-motion: o homem que liderava a "tríade de cinco" levou dois dedos à têmpora direita e pousou seu olhar sobre os dois, ali escondidos. As pistolas truculentas reluziram à luz solar, encerrando a cena.
Na mesma hora K gelou e murmurou para si mesmo:
- A Nova Ordem Mundial.

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(no subject) [Apr. 29th, 2004|05:48 pm]
CAPÍTULO II




"Boa noite, América. Sou Sean Bishop e este é o Saturday Night Live!..."

 K estava num poltrona velha, de frente para a televisão, isolado em sua sala escura.
Seus braços sangravam. No chão, dúzias de seringas ensangüentadas e copos tombados.

 Ofegava

 A televisão propiciava a única luz do aposento, apliando ainda mais as orelhas de K; tremia.
Os dedos apertados no braço da poltrona.... os olhos arregalados denunciavam um interesse
inexplicável diante do screen colorido.

 "... em todas as peças que circulam pelo país. Há nove anos seu nome estava na boca de todos os
líderes mundiais como "o segundo Einstein". Mais de setenta livros publicados... Recebam com
aplausos o pioneiro e inventor da Medicina Cibernética: Professor Doutor Adam "Einstein" Court!"

 Falava sozinho, sem emitir som algum. Seus lábios pálidos agoram tremiam com ódio. Ria baixo:
 - Seu... velho corno.. heh.. se não fosse você eu estaria vivendo bem. ... desgraçado! - saltou
da poltrona, visivelmente alterado. Segurava um revólver em uma das mãos, estando este apontado
para o rosto do médico na tela.

 Suas pernas vacilaram; ajoelhou-se. Arrastou-se até o aparelho.

 Chorava, nutrindo uma angústia e um ódio profundo àquele homem.

 - Tudo tava bem até você surgir com esse caralho de proposta. Seu imundo.. - abraçou a TV,
deslizando a pistola pela tela brilhante. - Era pra eu estar aí... nadando em grana COM O MEU
TRABALHO!
Mas... heh... você veio antes... mas aí.. anota isso: Cê vai morrer.

...
 Eram dez horas e K acordava; cedo, para ele. Uns cobertores haviam sido estendidos no chão para que
servissem de cama.

 Levantou-se.

 Caminhou até a pilha de lixo. Empurrou o corpo desfalecido de Dan e jogou algumas caixas para os
lados. Tal ritual revelou uma poltrona metálica, ligada a uma torre cromada que ostentava uma tela
média. Luzes coloridas corriam por diversos cabos espalhados na superfícia do aparelho.

 Antes de sentar-se, apertou um pequeno botao atrás da torre, fazendo com que a tela acendesse;
pegou um capacete, que lembrava o de uma motocicleta do século XX. Vestiu-o. Tratava-se de um
capacete indutor, que fazia com que K se conectasse à rede mundial de computadores; uns óculos de
quartzo-rubi ficavam em frente aos olhos e por trás do capacete diversos fios e cabos grossos saíam
e se ligavam ao computador.

=== Acessando Ciberespaço: Bem Vindo à Rede Mundial ===

» Verificando registros em datalink remoto. Insira sua senha. . .

» Senha correta. Seja bem vindo, OverBlast. Deseja carregar algum Módulo Ambiental?

 "Não."

» Carregando 'skin' padrão.

 O visual era fascinante: imagine o vácuo negro coberto de pontos de luz bruxuleantes, cada um deles
representando um conjunto de informações mais preciosas que ouro. Uma grade de linhas de neon interligam
os centros de comunicação enquanto resplandescentes serpentinas de dados alcançam a estratosfera para
conectarem-se com satélites cromados.

 Este é o ciberespaço - o mundo dos verdadeiros netrunners.

 Os netrunners - ou hackers - eram representados por esferas luminosas que transitavam religiosamente
pelas fitas de neon, de nó em nó.

 No caso do nosso herói, ele era uma esfera média e prateada. Logo que se conectou, conduziu-se - saltou - a um nó
não muito distante;

 Logo que caiu no nó desejado, uma tela se formou, pelo cérebro, diretamente em seus olhos.

 Textos de boas-vindas e propagandas ignoradas enfeitavam o topo da janela. Logo o visor tornou-se
um chat em que, cada usuário, conversava por texto.

» Bem vindos ao canal. Todos os cyberdecks estão familiarizados com o software.

- - - -

OverBlast entrou no canal!

Cobra: Olha o desgraçado aí.

- - - Iniciando Servidor de Canal Particular - - -

Cobra: Cara... Meu nariz tá sangrando.

OverBlast: ... pára de usar, então.

Cobra: Não, cretino. Purple e os caras dele me pegaram na rua.. Disseram que cê tava devendo pra ele.

OverBlast: Devia.. Mas paguei hoje. Como ele conseguiu aquele upgrade ferrado do olho biônico? Deve estar com uns 254 X de Zoom Telescópico!

Cobra: Pode crer! Dá uma aflição nojenta ver aquele olho girar. O canalha conseguiu descobrir que eu tava com uma 9mm depois de girá-los! Acho que ele tem um sensor ou ondulador.. Sei lá.

OverBlast: Hmm...Ele soube dos seguranças.

Cobra: QUÊ?! Cê diz.. Descobriu que eles são.. o que são?

OverBlast: É.

Cobra: Caraca... agora ele tá maquinado. Dizem que ele tá de parceria com o Einstein, saca? Essas jogadas políticas por baixo dos panos.

OverBlast: Tá?!

»» AVISO: O SISTEMA DETECTOU UMA TENTATIVA DE QUEBRA-GELO NA PORTA PRIMÁRIA A PARTIR DE UM PROTOCOLO MASCARADO. DESEJA ATIVAR O LINHA-RETA?

- - -

OverBlast: Caralho! Tá de Linha-Reta?! COMO?! Tá com que Deck?

- - - Usuário "Cobra" encontra-se ausente. - - -

OverBlast: Pô.. Esse soft é coisa de cyberdeck 1.

» Usuário "Cobra" saiu do canal.

King_Naja entrou no canal!

[Error: Irreparable invalid markup ('<bcobra [...] canal!</b>') in entry. Owner must fix manually. Raw contents below.]

<font face="Tahoma" color="red" size="3"><b>CAPÍTULO II</b></font><br> <br>

<p><font face="Tahoma" size="2" color="white">
"Boa noite, América. Sou Sean Bishop e este é o Saturday Night Live!..."<br>
 K estava num poltrona velha, de frente para a televisão, isolado em sua sala escura.
Seus braços sangravam. No chão, dúzias de seringas ensangüentadas e copos tombados.<br>
 Ofegava<br>
 A televisão propiciava a única luz do aposento, apliando ainda mais as orelhas de K; tremia.
Os dedos apertados no braço da poltrona.... os olhos arregalados denunciavam um interesse
inexplicável diante do <i>screen</i> colorido.<br>
 "... em todas as peças que circulam pelo país. Há nove anos seu nome estava na boca de todos os
líderes mundiais como "o segundo Einstein". Mais de setenta livros publicados... Recebam com
aplausos o pioneiro e inventor da Medicina Cibernética: Professor Doutor Adam "Einstein" Court!"<br>
 Falava sozinho, sem emitir som algum. Seus lábios pálidos agoram tremiam com ódio. Ria baixo:
 - Seu... velho corno.. heh.. se não fosse você eu estaria vivendo bem. ... desgraçado! - saltou
da poltrona, visivelmente alterado. Segurava um revólver em uma das mãos, estando este apontado
para o rosto do médico na tela.<br>
 Suas pernas vacilaram; ajoelhou-se. Arrastou-se até o aparelho.<br>
 Chorava, nutrindo uma angústia e um ódio profundo àquele homem.<br>
 - Tudo tava bem até você surgir com esse caralho de proposta. Seu imundo.. - abraçou a TV,
deslizando a pistola pela tela brilhante. - Era pra eu estar aí... nadando em grana <b>COM O MEU
TRABALHO!</b> Mas... heh... você veio antes... mas aí.. anota isso: Cê vai morrer.<br>
<b><i>...</i></b<br>
 Eram dez horas e K acordava; cedo, para ele. Uns cobertores haviam sido estendidos no chão para que
servissem de cama.<br>
 Levantou-se.<br>
 Caminhou até a pilha de lixo. Empurrou o corpo desfalecido de Dan e jogou algumas caixas para os
lados. Tal ritual revelou uma poltrona metálica, ligada a uma torre cromada que ostentava uma tela
média. Luzes coloridas corriam por diversos cabos espalhados na superfícia do aparelho.<br>
 Antes de sentar-se, apertou um pequeno botao atrás da torre, fazendo com que a tela acendesse;
pegou um capacete, que lembrava o de uma motocicleta do século XX. Vestiu-o. Tratava-se de um
capacete indutor, que fazia com que K se conectasse à rede mundial de computadores; uns óculos de
quartzo-rubi ficavam em frente aos olhos e por trás do capacete diversos fios e cabos grossos saíam
e se ligavam ao computador.<br>
<i> === Acessando Ciberespaço: Bem Vindo à Rede Mundial ===<br>
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 "Não."<br>
» Carregando 'skin' padrão.<br></i>
 O visual era fascinante: imagine o vácuo negro coberto de pontos de luz bruxuleantes, cada um deles
representando um conjunto de informações mais preciosas que ouro. Uma grade de linhas de neon interligam
os centros de comunicação enquanto resplandescentes serpentinas de dados alcançam a estratosfera para
conectarem-se com satélites cromados.<br>
 Este é o ciberespaço - o mundo dos verdadeiros <i>netrunners</i>.<br>
 Os netrunners - ou hackers - eram representados por esferas luminosas que transitavam religiosamente
pelas fitas de neon, de nó em nó.<br>
 No caso do nosso herói, ele era uma esfera média e prateada. Logo que se conectou, conduziu-se - saltou - a um nó
não muito distante;<br>
 Logo que caiu no nó desejado, uma tela se formou, pelo cérebro, diretamente em seus olhos.<br>
 Textos de boas-vindas e propagandas ignoradas enfeitavam o topo da janela. Logo o visor tornou-se
um <i>chat</i> em que, cada usuário, conversava por texto.<br>
<i>» Bem vindos ao canal. Todos os cyberdecks estão familiarizados com o software.</i><br>
- - - - <br>
<b>OverBlast entrou no canal!</b><br>
<b>Cobra</b>: Olha o desgraçado aí.<br>
- - - Iniciando Servidor de Canal Particular - - -<br>
<b>Cobra</b>: Cara... Meu nariz tá sangrando.<br>
<b>OverBlast</b>: ... pára de usar, então.<br>
<b>Cobra</b>: Não, cretino. Purple e os caras dele me pegaram na rua.. Disseram que cê tava devendo pra ele.<br>
<b>OverBlast</b>: Devia.. Mas paguei hoje. Como ele conseguiu aquele upgrade ferrado do olho biônico? Deve estar com uns 254 X de Zoom Telescópico!<br>
<b>Cobra</b>: Pode crer! Dá uma aflição nojenta ver aquele olho girar. O canalha conseguiu descobrir que eu tava com uma 9mm depois de girá-los! Acho que ele tem um sensor ou ondulador.. Sei lá.<br>
<b>OverBlast</b>: Hmm...Ele soube dos seguranças.<br>
<b>Cobra</b>: QUÊ?! Cê diz.. Descobriu que eles são.. o que são?<br>
<b>OverBlast</b>: É.<br>
<b>Cobra</b>: Caraca... agora ele tá maquinado. Dizem que ele tá de parceria com o Einstein, saca? Essas jogadas políticas por baixo dos panos.<br>
<b>OverBlast</b>: Tá?!<br>
<b>»» AVISO: O SISTEMA DETECTOU UMA TENTATIVA DE QUEBRA-GELO NA PORTA PRIMÁRIA A PARTIR DE UM PROTOCOLO MASCARADO. DESEJA ATIVAR O LINHA-RETA?<br>
- - -<br>
<b>OverBlast</b>: Caralho! Tá de Linha-Reta?! COMO?! Tá com que Deck?<br>
- - - Usuário "Cobra" encontra-se ausente. - - -<br>
<b>OverBlast</b>: Pô.. Esse soft é coisa de cyberdeck 1.<br>
» Usuário "Cobra" saiu do canal.<br>
<b>King_Naja entrou no canal!</b><br>
<bCobra entrou no canal!</b><br>
<b>King_Naja</b>: Bom dia, cavalheiros.<br>
<b>OverBlast</b>: PUTA QUE PARIU!<br>
<b>Cobra</b>: Corre, irmão! Despluga essa porra de capacete agora!
<b>King_Naja</b>: Sem exaltações, queridos cowboys de console. Se me permitem, vou abrir uma brecha no sistema de passwords.<br>
<b>OverBlast</b>: ...vai virar público.<br>
<b>Cobra</b>: ...e lotar.<br>
<b>King_Naja</b>: Amadores. Basta alterar o ping do servidor pra alterar o TdE do deck principal, fazendo com que o tempo de envio seja inferior a cem milissegundos.<br>
- - - Resposta de ping: 100ms - - -<br>
<b>RF entrou no canal!</b><br>
<b>Cobra</b>: PAI DO CÉU!<br>
<b>OverBlast</b>: ISSO É COISA DE I.A! SÓ O GOVERNO TEM!<br>
<b>RF</b>: Oi, Najinha!<br>
<b>King_Naja</b>: Bom dia, Rockefeller.<br>
- - - Usuário "Cobra" está ausente - - -<br>
<b>King_Naja</b>: Só um segundo, Ann. Cobra está tentando me pôr em um Loop. Me conecta com a linha três e me envia o pass, por favor?<br>
<b>RF</b>: Com a Casa?<br>
<b>King_Naja</b>: Sim, se for possível.<br>
- - - Envio de Conexão não é Permitido neste Servidor - - -<br>
<b>King_Naja</b>: Parece que não vou poder usar o Linha-Reta hoje. Vejamos.<br>
- - - King_Naja executou uma Corrosão contra Cobra.<br>
- - - King_Naja executou comando extra com TE 100ms e abriu Destruição em protocolo branco.<br>
- - - Usuário Cobra: Deseja ativar Fusível?<br>
» Cobra desconectado.<br>
<b>OverBlast</b>: ... m-meu Deus..!<br>
<b>King_Naja</b>: Acalme-se. Seu amigo está vivo, apenas meio atordoado. Conseguiu se ejetar antes de o meu comando se efetuar. Ele está num deck muito bom. Vamos conversar, afinal estamos num bate-papo!<br>
<b>OverBlast</b>: Certo.. Então você deve ser o famoso Rei das Cobras. Parece que não são boatos o que falam de você.<br>
<b>RF</b>: Claro que não! Naja é o netrunner maais ferrado que existe. Lembra quando o satélite daquele provedor foi desligado no Natal de vinte anos atrás?<br>
<b>OverBlast</b>: Eu era pequeno.. Mas meu avô me contou sobre isso.<br>
<b>King_Naja</b>: Ora, Rockefeller... Você estava longe de nascer ainda.<br>
<b>RF</b>: Papai me contou, tá!<br>
<b>King_Naja</b>: Acalme-se. Poupe-nos de declamar minhas glórias; odeio publicidade. Faço o que faço por amor.<br>
<b>OverBlast</b>: Quem é você afinal?<br>
<b>King_Naja</b>: O Rei das Cobras.. Como você mesmo disse. Espera que eu conte sobre mim? Voltaremos a nos falar em poucos dias, K.<br>
<b>RF</b>: Papai te enviou um presente, Blast. Disse que irá mais, só depende de você. Tchau!<br>
» RF desconectada.<br>
» King_Naja desconectado.<br>
- - - Software Transfer computa:<br>
·Saldo anterior: 0$00c<br>
·Saldo atual: 100.000$000c.<br>
» Foi efetuada uma transferência de cem mil créditos à sua conta provenientes do Protocolo Branco do Distrito de Columbia. - - -<br>
<b>OverBlast</b>: Oh meu Deus...<br>
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Ruas Frias - Grégore Garcia [Apr. 28th, 2004|09:51 am]
PRELÚDIO


Imagine um lugar constantemente escuro; imagine toda
uma sociedade decadente; imagine, também, cem milhões de vidas humanas lutando
por uma mísera subsistência em Nova Iorque.
Manhattan conecta-se a outra
massa de terra por tubos metálicos e vias expressas. Nova Iorque não é mais uma
ilha.
Uma constante nuvem de gás branco encobre a cidade e os vapores
expelidos pelos esgotos tornaram-se mais nocivos.
Vigésimo dia de outubro do
ano de 2019: O mais novo presidente da América é eleito.
Vigésimo dia de
outubro do ano de 2019: O início do fim.




CAPÍTULO I

Amanhecia em Nova Iorque às seis horas. O sol com
muito custo encontrava uma fresta entre os arranhacéus para aquecer a alma da
cidade.
Os homens bons vestiam seus ternos, desjejuam com suas lindas
esposas, beijavam seus filhos e saíam para a garagem; os homens inteligentes
acordavam em suas mansões gregas, rodeadas de prostitutas e restos de uma
diversão embriagada; empresários, corporados, astros e políticos acordavam com
as mãos à testa em suas camas de casal, empurrando os corpos nus das
garotas.
Em poucos minutos o tráfego havia se tornado insuportável, mesclando
gritos de estresse com fortes buzinas de caminhões e carros. Alguns resolviam
caminhar, percorrendo pequenas ruas e avenidas movimentadas. Vez ou outra era
preciso se esconder atrás dos latões de lixo para evitar abordagens dos
street-ops.
Queens Boulevard.
- Ei, chefe! o Cobra tá com
problemas! - gritou o rapaz quando entrou naquele aposento sujo e escuro.
-
Cale-se, inseto. - secundou um rapaz troncudo, acertando o rosto do jovem com
seu punho fechado; este caiu na pilha de sacos de lixo e equipamentos
eletrônicos velhos.
Na cadeira atrás de uma mesa, estava um rapaz espadaúdo e
de porte atlético. Vestia-se com jaqueta de couro, botas e óculos escuros.
Prostitutas satisfaziam-no por baixo da mesa.
Tirou os oculos e olhou para o
rapaz no lixo:
- Porra, Dan. Já te disse pra não entrar aqui sem avisar.
Limpa esse sangue. O Cobra que espere. - pequena pausa - Chega,
vadias.
Levantou-se então, fechando o zíper da calça de couro. Espreguiçou-se
e pegou um taco de baseball do chão.
Dan ergueu-se do lixo e bateu as
mãos nas roupas.
- Esses filhos da puta, - murmurou - trabalham aqui faz mó
cara e não sabem quem eu sou.
Com um sinal do "chefe", os seguranças puxaram
suas pistolas cromadas de dentro do terno e abriram fogo contra Dan. As
prostituras berraram, horrorizadas, e fugiram capengas com as roupas nos
braços.
O jovem recolocou os óculos no rosto e foi saindo, chamando os dois
homens com os dedos:
- Venham. E não me chamem de "chefe".
- Certo, Senhor
K.
A porta de aço se fechou, mergulhando o aposento na escuridão
cotidiana.
Já na rua, K e os dois brutamontes caminhavam com imponência,
ostentando mais do que simples status de rua. O ambiente era o de sempre:
escuridão, vapor, libertinagem e uma constante aura de caos e
desprezo.
Alheios ao sistema, os street-ops constituíam a casta das
monarquias absolutistas, os servos e vassalos do governo; não mais do que
marginais rebeldes, os punks de rua, como também eram conhecidos, eram a
maioria do povo, apesar de já terem sido esquecidos pela Câmara.
Sr. K e os
seguranças caminhavam pela calçada.
Pararam de frente para uma vitrine de uma
velha loja de consertos, quase fora do Queens. Os televisores
brilhavam:
"Stanley García diretamente de Washington, Distrito de Columbia,
cobrindo integralmente as eleições. Acompanhem agora, o nosso excelentíssimo
mais novo presidente subir ao púpito defronte o Capitólio. Ao discurso:"
-
Porra... tava tendo eleição? - se interessou, aproximando-se do vidro.
"-
Meus irmãos, é com grande honra que envolvo as espáduas com esta bandeira.
Comprometo-me em rearranjar nosso sistema de modo com que ela fique mais justa e
livre. Meu bisavô dizia: "Meu sucesso é um fruto da nação bem
administrada..."
- Caralho, velho escroto.. Fala que cê vai roubar que nem os
outros.
O presidente continuou:
"- Concluo assim. Prometo que serei o
melhor líder desde George Washington."
Ovação. Hurras. As listras e estrelas
sacudiam com louvor sobre as cabeças dos jovens entusiastas.
"Que lindo
discurso, América! Eu tenho o prazer de dizer que sou americano. Stanley García,
da Casa Branca para o KBBS Journal."
- Bah.. Repórter de merda.
- Ei,
chefe.
- Porra! eu já disse pra...
O silêncio repentino acusava um
provável pânico. Quando virou-se, K deparou-se com mais três homens: vestiam-se
em couro vermelho, cujos cabelos em moicano eram de um rosa vivo. Encararam-se
por uns instantes. K principiou à frente, apoiando o taco de baseball no ombro.
os seguranças puseram as mãos por dentro do paletó.
O silêncio agoniante foi
quebrado pela iniciativa do outro líder:
- Cê me deve, K.
Com um sinal de
K, os seguranças sacavam as armas, já apontando às têmporas dos três. Esboçou um
sorriso triunfante.
- Ar/> Purple acusava-se um cidadão repulsivo. As
faces eram cobertas por tatuagens que, na maioria, eram desenhos de chips e
cabos elétricos, como se escavassem a pele do rapaz em direção aos olhos. Olhos
que brilhavam num roxo neônico, o que lhe rendia a alcunha. Roupas rasgadas e
flexão ousada, punham-no no "Top Cinco" dos chefões do baixo sub-mundo.
Seus
olhos giraram, as pupilas se abriram como lentes de máquinas fotográficos. Fitou
os seguranças de K e levou a mão a um pequeno relógio no pulso:
- Onde
arranjou essas drogas?
- Os... "seguranças"? - sarcasmo.
- Cara, essas
peças são as piores. Esses caras são os piores ciborgues que eu já vi.
K
engoliu seco. Tirou os óculos escuros, olhando os olhos de Purple. Falou baixo:

- Relaxa, irmão. Já tô com os Créditos aqui.
Os seguranças guardaram as
armas.
Purple riu, tirando a mão do pulso.
- Sabia que você não era
burro.
Abraçou a cintura de K, induzindo-o a andar para um beco estreito.
Falava calmamento, enquanto tirava uma pequena placa metálica do bolso interior.
Falava coisas que não interessavam a K.
Entregou o taco de baseball a
um segurança e pegou a placa metálica da mão do punk. Depois de um leve
zunido, a placa fora devolvida ao dono.
Separarem-se com cumprimentos
corteses. Em direções opostas, os dois trios seguiam seus caminhos. K parecia
suar. Tomaram um rumo inocente, caminhando em direção ao centro.

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